Eu nem ia falar nada, mas eu vou ter que comentar sobre a pesquisa da 'Tolerância social à violência contra a mulher', realizado pelo Ipea. Isso porque eu tenho visto comentários de homens que ignoram que o machismo existe. E também tenho visto todas as mulheres se indignarem com o resultado, mas não enxergam que elas mesmas provocam e ensinam esse tipo de pensamento.
65% dos entrevistados concordam que "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas".
Ponto 1, a frase: Essa frase é o pior absurdo, tão delirante quanto achar que você mereceu ser assaltado, porque, afinal, onde você estava com a cabeça de passear depois das 22hs nas ruas??
Culpa do defunto que inventou de bancar o heroi no assalto, morreu, ta vendo? Todo mundo sabe que não pode reagir num assalto, ele mereceu ser assassinado.
Percebem a inversão de valores que a nossa sociedade dissemina silenciosamente? Sem nos dar conta, a vítima vira o culpado assim como um mais um são dois.
No estupro, o ÚNICO culpado é o estuprador, vamos parar de ensinar as mulheres, meninas e meninos como não serem estuprados e começar a ensinar os homens a não estuprar.
Ponto 2, o resultado: Esse resultado é apenas a ponta do iceberg, apenas um retrato extremo de como pensam as próprias mulheres. Mulheres, a pesquisa foi respondida principalmente por mulheres, não é estranho esse resultado?
Não!! Pior é que não é nem um pouco estranho. Pensamentos nessa linha são propagados todos os dias pelas próprias mulheres, indignadas ou não, que criticam absolutamente TUDO numa outra mulher e também em si mesmas.
A nossa liberdade é míope. Hoje em dia, temos não só a liberdade, mas a obrigação de trabalhar para ser boa o suficiente. Por outro lado, a liberdade de sermos como e o que quisermos continua a mesma de sempre, se é que não retrocedeu.
Boas e velhas provas de que somos uma mulher boa o suficiente perduram e só aumentam com o nosso poder de consumo. Nada passa batido no scanner de uma mulher: Unhas lindas, cabelos impecáveis, rosto de princesa, corpo escultural, casa impecável, filhos bem educados, marido mimado. Além disso, temos que ser profissionalmente bem-sucedidas, independentes, estudadas e ainda aproveitar muito, pois a vida é uma só.
Isso é ser livre?
Nós, mulheres, e tão somente nós, cobramos tudo isso de nós mesmas todos os dias e é claro que fazemos questão de reparar se a vizinha não preenche qualquer quesito desses todos os dias. Com tudo isso, não me assusta nem um pouco as próprias mulheres acharem que mulher que mostra o corpo merece ser estuprada.
Ponto 3, estupro x sexo: essas duas palavras são completamente diferentes. Estupro não é sexo. É humilhação, é violência física, é agressão por todo o corpo, é violência psicológica, é a vergonha (?!!), é a família querendo abafar o caso, é a sociedade duvidando, querendo encontrar os erros da vítima, é a incompetência da polícia, que desdenha da sua dor, não investiga, não move uma palha pra pegar o(s) criminoso(s), pois afinal, esse tipo de coisa acontece direto e não há nada a fazer, enfim, é um puta trauma que pode estragar e até tirar uma vida.
Sexo é outra coisa, sexo deveria ser prazer, mas já que cobramos tudo de nós mesmas, nem isso é permitido. Já existe uma preocupação nas escolas com a educação sexual por conta de DSTs. Mas isso não é nada. E a educação do prazer, onde fica? Ah, isso fica dentro da gaveta empoeirada que ninguém mexe. E nem vou mexer porque também é outra longa história preocupante.
Estamos doentes e é isso o que aponta os resultados dessa pesquisa.
Aos homens que se acham moderninhos e acreditam que machismo não existe, às mulheres indignadas com o resultado, espero que todos (nós) não deixemos que esse assunto caia no esquecimento.
Precisamos tomar esse resultado para nós mesmos, abraçar a responsabilidade de fazer diferente, começando em casa, questionando nossas próprias atitudes e pensamentos. Daí quem sabe na próxima pesquisa, nem haverá o que pesquisar sobre a violência contra a mulher.
terça-feira, 1 de abril de 2014
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